A presente pesquisa, de natureza conceitual, procurou compreender a obra de A. R. Luria (1902-1977) como determinada pela concretude de seu contexto histórico, isto é, a Rússia pós-revolucionária como marco inicial de seus estudos e pesquisas e, posteriormente, a União Soviética sob o regime stalinista. Para isso, foi realizada uma extensiva pesquisa das publicações deste autor, evidenciando a crescente sistematização dos conceitos e método para a compreensão da constituição da consciência humana, tomando-se por base seus fundamentos filosóficos e epistemológicos.
Os estudos de Luria foram organizados por etapas - antes de Vigotski, em conjunto com ele e após sua morte - devido ao aparente redirecionamento dado às suas pesquisas, durante o stalinismo, que o fez concentrar-se mais na área da neuropsicologia. Observou-se que suas obras mais conhecidas no Ocidente quando desligadas de seus fundamentos marxistas, vêm dando base a apropriações indevidas de seus conceitos e associações a autores cuja base epistemológica é contrária.
Entende-se que apenas o resgate da obra luriana em seu conjunto, bem como de seus fundamentos marxistas possibilita compreender o funcionamento cerebral como materialização das funções psicológicas superiores, de origem cultural, opondo-se ao reducionismo biológico ou subjetivo, hegemônico na atualidade.
Para esta empreita, foi demonstrado que Luria deu continuidade aos pressupostos vigotskianos em suas pesquisas sobre o funcionamento cerebral e suas patologias, a despeito do acirramento do “stalinismo” na União Soviética após a morte de Vigotski, em 1934, superando a compreensão do homem como mais uma espécie sujeita, em seu desenvolvimento, às condições de maturação de seu organismo biológico, e, portanto, limitada por tais condições que independem de aspectos sócio-culturais, em direção a uma nova forma de entendimento do desenvolvimento e aprendizagem humanos, como um vir-a-ser.
Para ele, quanto maior a complexidade das relações sociais, mais imprescindível é a educação sistematizada em dois sentidos: como garantia de continuidade e desenvolvimento do processo de humanização e como possibilidade de alteração ou superação dos entraves que impedem que este processo se dê em todos os indivíduos no interior da sociedade. Baseando-se em Vigostski, postulou que a consciência é a “vida tornada consciente” e que portanto, não são os processos internos nas estruturas receptoras que se refletem na consciência, mas é o mundo exterior que sempre se reflete nela.
Desta forma, a “arquitetura” dos sistemas funcionais cerebrais subjacentes, que possibilitam o reflexo consciente da realidade, não permanece constante ao longo do desenvolvimento, isto é, não é estática, mas justamente é no e pelo reflexo da realidade, entendido aqui como processo, que se constituem as formas mais complexas do psiquismo humano, suas ligações funcionais.
Só tal abordagem do problema vai além das compreensões organicistas e biologicizantes existentes no âmbito da Psicologia e da Educação, pois afirma a unidade dialética corpo/mente, indivíduo/sociedade que se dá por meio do trabalho ou da atividade humana, que permite entender os problemas de escolarização como constituídos historicamente, indicando enfrentamentos práticos para a crescente patologização dos indivíduos na escola. |