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Livro: Brincar, jogar, viver: IX Jogos dos Povos Indígenas - Apresentação

Como citar este trabalho:
PINTO, Leila Mirtes Santos de Magalhães; GRANDO, Beleni Saléte (Org.). Brincar, jogar, viver: IX Jogos dos Povos Indígenas. Cuiabá: Central de Texto, 2009. 260 p.
> Sumário  > Prefácio  > Apresentação  
As comunidades indígenas brasileiras abrigam populações desprovidas de acesso a políticas públicas de esporte e lazer que devem ser garantidas a todas elas. Seus territórios estão intimamente relacionados às suas identidades, melhor dizendo, são espaços onde se dão as manifestações culturais do grupo, onde se encontram valiosas tradições e onde acontece a transmissão intergeracional de seu patrimônio material e imaterial. Conhecimento que se manifesta por meio de jogos, danças, cantos, rituais, produção artesanal, relação familiar, dentre tantas outras formas de manifestações.

Porém, por questões históricas, todo esse patrimônio não é suficientemente conhecido e reconhecido como uma das nossas maiores riquezas. Ao mesmo tempo, o país pouco sabe das especificidades das demandas e necessidades dos indígenas no que tange ao esporte e ao lazer.

Essas duas razões, principalmente, mobilizaram o Comitê Intertribal a criar e realizar os Jogos Nacionais dos Povos Indígenas desde sua primeira edição realizada em Goiânia, no ano de 1996. Motivos que fizeram com que os IX Jogos, centro das discussões do presente livro, fossem promovidos considerando como seu principal objetivo “resgatar e valorizar os jogos esportivos indígenas, promovendo congraçamento e intercâmbio entre as etnias participantes, fortalecimento da identidade cultural desses povos e confraternização digna e respeitosa dos índios com a sociedade não indígena. ”Ao longo desta história, o Ministério do Esporte, numa relação institucional com a FUNAI/Ministério da Justiça, por diversas vezes foi apoiador destes Jogos, entendendo sua relevância sem, contudo, considerar essa experiência como um marco para a discussão de uma política de esporte e lazer deste Ministério, que inclua os indígenas como seus autores e beneficiários.

Com esse sentimento, em 2007 o apoio do Ministério do Esporte aos IX Jogos Nacionais dos Povos Indígenas foi diferente. Em 19 de julho daquele ano, em reunião realizada no Rio de Janeiro com a participação dos Secretários Nacionais, Júlio Filgueira e Rejane Penna Rodrigues, além dos representantes do Estado de Pernambuco, Nelson Pereira (Secretário de Esporte) e George Braga, iniciaram-se discussões governamentais mais amplas com vista a definir um apoio institucionalizado aos Jogos com maior envolvimento do Governo Federal.

Naquela ocasião, o Ministério do Esporte definiu que o apoio aos Jogos, até então coordenado pela sua Secretaria Nacional de Esporte Educacional/SNEED, passaria no ano de 2008, a ser de responsabilidade da Secretaria Nacional de Desenvolvimento de Esporte e de Lazer/SNDEL. Nessa transição, ficou acordado que, no ano de 2007, os encaminhamentos de organização e coordenação geral do evento, por parte do Governo Federal, já seriam da SNDEL, enquanto os encaminhamentos legais referentes ao gerenciamento orçamentário da ação ainda seriam pela SNEED.

Ao assumir essa responsabilidade, a SNDEL assumiu também o planejamento integrado com a SNEED e todos os parceiros envolvidos nos Jogos, especialmente o Comitê Intertribal, idealizador do evento. A ideia não foi apenas somar os esforços institucionais e organizacionais demandados pelos Jogos. Era preciso, sobretudo, conhecer as necessidades específicas desta realização, aprender sobre elas trabalhando com os indígenas e os apoiadores. Certamente o sucesso deste desafio dependia desta integração e da capacidade de os atores envolvidos, especialmente os que compunham as instâncias de coordenação, entenderem a proposta dos Jogos, se identificarem com ela e dialogarem muito, com muita abertura para ouvir e falar, como já mencionado pela Secretária Rejane no seu Prefácio.

Por isso, adotamos o modelo de Comissões conforme a natureza das atividades implicadas na ação, contemplando-as de forma descentralizada, diversificada e com o envolvimento, em todas as subcomissões, do Comitê Intertribal junto com os representantes das três instâncias governamentais apoiadoras Governo Federal, Estado de Pernambuco e os Municípios de Olinda e Recife, onde os Jogos iriam se realizar.

A publicação da Portaria Ministerial n. 152, de 31 de julho de 2007, no Diário Oficial da União, criou a Comissão Organizadora dos IX Jogos Nacionais Indígenas, deflagrando várias reuniões em Brasília e Recife que passaram a tratar do planejamento, da execução e da avaliação da IX edição dos Jogos (transporte, alojamento, alimentação, infraestrutura/arena/campos, programação etc.).

No âmbito desta organização, foi constituída uma Subcomissão de Documentação e Avaliação, sob a coordenação do Departamento de Ciência e Tecnologia do Esporte/SNDEL e do Comitê Intertribal. Um de seus objetivos foi envolver os representantes institucionais implicados em observações e debates realizados ao longo de todo processo, por meio de reuniões periódicas de avaliação, com vista à qualificação do processo. Um segundo objetivo foi realizar entrevistas com os idealizadores dos Jogos dos Povos Indígenas, participantes indígenas e gestores apoiadores, buscando analisar o vivido e levantar subsídios para a implementação da Política Nacional de Esporte, considerando o atendimento das populações indígenas.

A gravação, degravação e organização dos dados registrados em todos esses momentos permitiram-nos não somente registrar a memória do processo de construção dos IX Jogos, como também analisar, especialmente, quatro aspectos essenciais destacados pelos organizadores e gestores: (1) viver da gestão compartilhada, (2) avaliação das relações, (3) aspectos  relevantes para a organização dos Jogos e (4) possibilidades criadas em todo o seu processo aspectos que orientaram a sistematização e organização dos dados coletados.

Nesse processo, foram muito marcantes as falas dos indígenas, homens e mulheres, com os quais dialogamos. Eles nos fizeram lembrar de muitos brasileiros com suas alegrias,sonhos, problemas diários e vontade de fazer algo para superar as dificuldades e valorizar suas identidades e práticas culturais. O conhecer mais sobre essas histórias, cujos extratos de falas estão registrados neste livro, aproximou-nos dos territórios indígenas e de parte da nossa história cotidiana que pouco ou nada conhecíamos.

As espectativas dos indígenas tornaram-se vivas para todos os representantes institucionais participantes desta avaliação, revelando um desejo de todos em reconstruir uma realidade, como se tivéssemos entrado de novo no cotidiano de muitos excluídos em nosso país. No entanto, dessa vez, não estávamos entrando na realidade indígena como meros curiosos, mas, sobretudo, como aprendizes e cidadãos corresponsáveis pela reconstrução desta história.

Para dar vida a este registro, organizamos o livro em partes que permitem leituras independentes e inter-relacionadas, aliando pesquisas documentais com falas na íntegra.

Nesta primeira parte, as apresentações colocadas apontam para fatores que gestaram o nascer desta produção. Na segunda parte, nosso diálogo é com os indígenas idealizadores dos Jogos e participantes dos IX Jogos. Parte de texto onde também conhecemos um pouco mais sobre: que jogos são esses? Que práticas corporais são vividas? Que etnias participaram deste evento em Pernambuco? O que os indígenas têm para nos contar sobre a participação de cada etnia? A terceira parte reúne avaliações desta IX edição dos Jogos Nacioanis Indígenas realizada pelos participantes da organização do evento: indígenas, atachês, gestores, pesquisadores e público. Na quarta e última parte do livro, sintetizamos a avaliação dos pesquisadores da SNDEL e da Universidade do Estado de Mato Grosso, convidada a integrar a realização desta avaliação e a publicação desta obra.

Este trabalho somente foi possivel dado o empenho de todos os pesquisadores/colaboradores
participantes da Subcomissão de Avaliação e Documentação, que trataram de forma competente, cuidadosa e sensível tanto o levantamento de dados como sua transcrição e organização.

Esperamos que esta obra possa ajudar na leitura, compreensão e valorização das práticas indígenas, das revelações de seus territórios, do conjunto de suas heranças, limites a serem superados e possibilidades vividas, revelando construções sociais e culturais do povo brasileiro a serem cada vez mais valorizadas por todos.

Esta publicação também tem o sentido de contribuir com a ampliação de ações sistemáticas de esporte e lazer indígenas e a continuidade da realização dos Jogos dos Povos Indígenas como parte de uma política nacional que trata a questão indígena sempre com seriedade e respeito, revitalizando o seu patrimônio cultural.

Leila Mirtes Santos de Magalhães Pinto
Diretora do Departamento de Ciência e Tecnologia do Esporte, Secretaria Nacional de Desenvolvimento de Esporte e de Lazer Ministério do Esporte, Representante do Ministério do Esporte na Coordenação da Comissão de Documentação e Avaliação dos IX Jogos Nacionais dos Povos Indígenas
 

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